segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Belo, intemporal, de uma sensibilidade comovente ... 

...o meu presente de Natal para todos



Colocado por Alcida Maria Morais


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ítalo Calvino

Se numa noite de Inverno um viajante

(Começar. Foste tu que o disseste, Leitora. Mas como fixar o momento exacto em que começa uma história? Tudo começou sempre antes, a primeira linha da primeira página de todos os romances remete para alguma coisa que já aconteceu fora do livro. Ou então a verdadeira história é a que começa dez ou cem páginas mais à frente e tudo o que vem antes é só um prólogo. As vidas do indivíduos da espécie humana formam um entrecho contínuo, em que todas as tentativas de isolar um pedaço de vivido que tenha um sentido separado do resto – por exemplo, o encontro de duas pessoas que será decisivo para ambas – deve ter em conta que cada um dos dois traz consigo um tecido de factos, ambientes, outras pessoas, e que do encontro derivarão por sua vez outras histórias que irão separar-se da sua história comum).
Estais juntos na cama, Leitor e Leitora. Portanto chegou a altura de vos tratar pela segunda pessoa do plural, operação importantíssima, porque equivale a considerar-vos um único sujeito. Falo convosco, embrulhado não muito discernível debaixo do lençol todo amarfanhado. Se calhar depois vai cada um para o seu lado e a narração terá de novo de se esforçar por manobrar alternadamente a alavanca da mudança do tu feminino para o tu masculino; mas por agora, como os vossos corpos tendem a achar entre as duas peles a adesão mais pródiga de sensações, transmitir e receber vibrações e movimentos ondulados, penetrar os cheios e os vazios, como a actividade mental também é entendida no seu máximo entendimento, pode-se fazer-vos um discurso seguido que englobe ambos numa única pessoa bicípite. Aonde leva esta vossa identificação? Qual é o tema central que se repete nas vossas variações e modulações? Uma tensão concentrada para não perder nada do seu potencial, para prolongar um estado de reactividade, para aproveitar o acumular do desejo do outro para multiplicar a sua própria carga? Ou o abandono mais brando, a exploração da imensidade dos espaços a acariciar e reciprocamente carinhosos, a dissolução do ser num lago de superfície infinitamente táctil? Em ambas as situações só existis em função um do outro, mas para as tornardes possíveis, os vossos respectivos eus em vez de se anularem têm de ocupar sem resíduos todo o vácuo do espaço mental, de investir em si mesmos com os maiores lucros possíveis ou de se consumir até ao último centavo. Em resumo, o que fazeis é muito belo mas gramaticalmente não muda nada. No momento em que mais pareceis um vós Unitário, sois mais que antes dois tus separados e completos.
(Isto já agora, quando ainda estais ocupados com a presença um do outro de maneira exclusiva. Imagine-se daqui a não muito tempo, quando fantasmas por aparecer frequentarem as vossas mentes acompanhando os encontros dos vossos corpos controlados pelo hábito).
Leitora, agora és lida. O teu corpo é submetido a uma leitura sistemática, através de canais de informação tácteis, visuais, olfactivos,  e não sem nenhuma intervenção das papilas gustativas. Até o ouvido desempenha  o seu papel, atento como está aos teus arfares e às tuas vibrações. Não é só o corpo que em ti é objecto de leitura: o corpo conta enquanto parte de um conjunto de elementos complicados, nem todos visíveis e imediatos: o enevoar dos teus olhos, o riso, as palavras que dizes, a maneira de prenderes e soltares os cabelos, o modo de tomares a iniciativa e de te retraíres, e todos os sinais que estão na margem entre ti e os usos e costumes e a memoria e a pré-história, todos os códigos, todos os pobres alfabetos através dos quais um ser humano julga em certos momentos estar a ler outro ser humano.
Entretanto tu também és objecto de leitura, ó Leitor: a Leitora passa agora em resenha o teu corpo como se corresse o índice dos capítulos, ora o consulta como que tomada de curiosidades rápidas e precisas, ora se detém a interrogá-lo e deixando que lhe chegue uma resposta muda, como se cada busca parcial só lhe interessasse com vista a um reconhecimento espacial mais vasto. Ora se fixa em aspectos insignificantes, talvez pequenos defeitos estilísticos, por exemplo, a maçã de Adão proeminente ou o teu modo de enfiar a cabeça no côncavo do teu pescoço, e serve-se disso para  estabelecer uma margem de distanciamento, reserva critica ou familiaridade brincalhona; ora pelo contrario o pormenor descoberto por acaso é valorizado, por exemplo a forma do teu queixo ou uma tua especial mordidela no seu ombro, e a partir deste ponto de partida ela ganha impulso, percorre (percorreis em conjunto) páginas e páginas de alto a baixo sem saltar uma vírgula. Entretanto, na satisfação que sentes pela maneira como ela te lê, pelas citações textuais da tua objectividade física, insinua-se uma dúvida: que ela não te leia a ti uno e íntegro como és, mas te use, que use fragmentos de ti retirados do contexto para construir um partner fantasmático, que só ela conhece, na penumbra da sua semiconsciência, e o que ela está a decifrar seja este apócrifo visitante dos seus sonhos e não tu.
A leitura que os amantes fazem dos seus corpos (desse concentrado de corpo e espírito de que os amantes se servem  para irem juntos para a cama) difere da leitura das páginas escritas por não ser linear. Começa num ponto qualquer, salta, repete-se, volta atrás, insiste, ramifica-se em mensagens simultâneas e divergentes, torna a convergir, enfrenta momentos de tédio, vira a página, recupera o fio, perde-se. Nela pode-se reconhecer uma direcção, o percurso para um fim, dado que tende para um clímax, e com vista a este clímax dispõe fases rítmicas, escanções métricas, recorrência de motivos. Mas o fim será mesmo o clímax? Ou a corrida para esse fim é contrariada por outro impulso que luta contra a corrente, remontando os instantes, para recuperar o tempo?
Se se quisesse representar graficamente o conjunto, cada episódio com o seu auge exigiria um modelo a três dimensões, talvez a quatro, nenhum modelo, toda a experiência é irrepetível. O aspecto em que a cópula e a leitura mais se parecem é que dentro delas se abrem tempos e espaços diferentes do tempo e do espaço medíveis.
Já na improvisação confusa do primeiro encontro se lê o possível futuro de uma convivência. Hoje cada um é objecto de leitura do outro, cada um lê no outro a sua história não escrita. Amanhã, Leitor e Leitora, se estiverem juntos, se se deitarem na mesma cama como um casal assente, cada um acenderá o candeeiro na sua mesa de cabeceira e mergulhará no seu livro; duas leituras paralelas acompanharão a vinda do sono; primeiro tu e depois tu apagarão a luz; retornados de universos separados, encontrar-se-ão fugazmente no escuro onde todas as distancias se apagam, antes que os sonhos divergentes os arrastem também tu para um lado e tu para outro. Mas não brinquem com esta perspectiva de harmonia conjugal: que imagem de casal mais feliz poderiam contrapor-lhe?
C ALVINO, Ítalo, Se numa noite de Inverno um viajante, Editorial Teorema, LDA, Lisboa, 2000, pág. 182, 183,184, 185 e 186
Colocado por Alcida Maria Morais

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quase

Mário de Sá Carneiro

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão...Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh' alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que bebi mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Colocado por Alcida Maria Morais


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Correu simples a nossa conversa durante a refeição. Foi só ao café que Ricardo principiou:


— Não pode imaginar, Lúcio, como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em que nos encontramos. Antes de o conhecer, não lidara senão com indiferentes — criaturas vulgares que nunca me compreenderam, muito pouco que fosse. Meus pais adoravam-me. Mas, por isso exactamente, ainda menos me compreendiam, Enquanto que o meu amigo é uma alma rasgada, ampla, que tem a lucidez necessária para entrever a minha. É já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por isso hoje eu vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguém, a maior estranheza do meu espírito, a maior dor da minha vida…

Deteve-se um instante e, de súbito, em outro tom:

— É isto só: — disse — não posso ser amigo de ninguém… Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos — já lhe contei —, apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por consequência, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, apenas as adivinhei. Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.

"Ah! a minha dor é enorme: Todos podem ter amizades, que são o amparo de uma vida, a "razão" de uma existência inteira — amizades que nos dedicam; amizades que, sinceramente, nós retribuímos. Enquanto que eu, por mais que me esforce, nunca poderei retribuir nenhum afecto: os afectos não se materializam dentro de mim! É como se me faltasse um sentido — se fosse cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo de alma. Há qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer coisa que eu palpo, e não posso sentir… Sou um desgraçado… um grande desgraçado, acredite!

"Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar — em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras — assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe…

"Entretanto estes desejos materiais — ainda lhe não disse tudo — não julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha alma poderia matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar — e assim satisfazer, isto é, retribuir-sentindo as minhas amizades.

"Eis tudo…

"Não me diga nada… não me diga nada!… Tenha dó de mim… muito dó…

Calei-me. Pelo meu cérebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguém a cujos pés, sobre uma estrada lisa, cheia de sol e árvores, se cavasse de súbito um abismo de fogo.

Mas, após instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:

— Bem… Já vai sendo tempo de nos irmos embora.

E pediu a conta.

Tomamos um fiacre.

Pelo caminho, ao atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao ouvido os sons de um violino de cego, estropiando uma linda ária. E Ricardo comentou:

— Ouve esta música? É a expressão da minha vida: uma partitura admirável, estragada por um horrível, por um infame executante…



Sá Carneiro, Mário de, A Confissão de Lúcio, Assírio e Alvim, Lisboa,  2004, pág 54, 55 e 56


Colocado por Alcida Maria Morais

sábado, 1 de dezembro de 2012


 Viajar? Para viajar basta existir.

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p - 387.

Colocado por Alcida Maria Morais

segunda-feira, 26 de novembro de 2012


Compreendi que viver é ser livre… Que ter amigos é necessário… Que lutar é manter-se vivo… Que para ser feliz basta querer… Aprendi que o tempo cura… Que a mágoa passa… Que a decepção não mata… Que hoje é o reflexo de ontem… Compreendi que podemos chorar sem derramar lágrimas… Que os verdadeiros amigos permanecem… Que a dor fortalece… Que vencer engrandece… Aprendi que sonhar não é fantasiar… Que para sorrir tem que se fazer alguém sorrir…Que a beleza não está no que vemos, e sim no que sentimos… Que o valor está na força da conquista… Compreendi que as palavras têm força… Que fazer é melhor do que falar… Que o olhar não mente… Que viver é aprender com os erros… Aprendi que tudo depende da vontade… Que o melhor é sermos nós mesmos… Que o SEGREDO da vida é VIVER !!!”

“E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusivé muitas vezes é o próprio, apesar de, que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida.”
Clarisse Lispector
Colocado por Alcida Maria Morais

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Há vários anos que ando a pensar em Tomas, mas só à luz destas reflexões é que o vi pela primeira vez com toda a nitidez. Vejo-o de pé, a uma janela da sua casa, a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio. Sem saber o que fazer.
Conhecera Tereza mais ou menos há três semanas numa cidadezinha da Boémia. Só tinham passado pouco mais de uma hora juntos. Ela acompanhara-o à estação e tinha esperado até ele entrar no comboio. Dez dias mais tarde , veio vê-lo a Praga. Fizeram amor logo no próprio dia da sua chegada. Durante a noite Tereza ficou cheia de febre e passou uma semana inteira com gripe em casa dele.
Sentiu então um amor inexplicável por aquela rapariga que mal conhecia. Parecia-lhe uma criança que alguém pusera numa cesta  untada com pez e abandonara às águas de um rio para ele recolher na margem da sua cama.
Ficou uma semana em casa dele e, depois, uma vez curada, voltou para a cidade onde morava, a duzentos quilómetros de Praga. E é aqui que se situa o momento de que falei há pouco e onde vejo a chave da vida de Tomas: está de pé à janela e a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio e reflecte:
Deve-lhe propor que venha instalar-se em Praga? É uma responsabilidade que o apavora. Se a convida a vir passar uns dias a sua casa, ela virá imediatamente oferecer-lhe a vida inteira.
Ou deve renunciar? Nesse caso, Tereza continuará a ser criada numa cervejaria daquele buraco de província e nunca mais a verá.
Quer que ela venha ter consigo ou não?
Olha para o pátio, tem os olhos fixos no prédio em frente e procura uma resposta.
Volta, ainda e sempre, à imagem daquela mulher deitada no seu divã; nunca conhecera ninguém assim. Não era nem uma amante nem uma esposa. Era uma criança que tirara de uma cesta untada com pez e que poisara na margem da sua cama. Ela adormecera. Ajoelhou-se ao seu lado. O hálito febril acelerou-se e ouviu um leve gemido. Encostou o rosto ao dela e soprou algumas palavras de repouso para dentro do seu sono. Um instante depois, pareceu-lhe que a respiração de  Tereza se acalmava e que o seu rosto se levantava maquinalmente em direcção ao dele. Cheirava-lhe nos lábios o cheiro um pouco acre da febre e aspirava-o como se se quisesse impregnar da intimidade do seu corpo. Pôs-se então a pensar que  Tereza  já lá morava em casa há muitos anos e que estava moribunda. De repente, tornou-se-lhe evidente que não sobreviveria à sua morte. Deitar-se-ia a seu lado para morrer também. Escondeu o rosto contra o dela na almofada e assim ficou por longo tempo.
Neste momento, está de pé à janela e invoca esse instante. O que seria que assim se dava a conhecer senão o amor?
Mas o amor era isso? Tinha-se convencido de que queria morrer ao lado dela, e este sentimento era manifestamente excessivo: se era só a segunda vez que a via!  Não seria antes a reacção histérica de um homem que, ao aperceber-se, no seu foro íntimo, da sua incapacidade para amar, começava a representar para si próprio a comédia do amor? Ao mesmo tempo, o seu subconsciente era de tal modo cobarde que escolhia para essa comédia uma pobre criada de província que não tinha praticamente nenhuma hipótese de entrar na sua vida!
Olhava para as paredes sujas do pátio e percebia que não sabia se aquilo era histeria ou amor.
E, numa situação em que qualquer homem a sério saberia imediatamente como agir, censurava-se intimamente por hesitar e por assim privar o momento mais belo da sua vida (ajoelhado à cabeceira da rapariga, convencido de que não sobreviveria à sua morte) de todo e qualquer significado.
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem rectificada em vidas posteriores.
É melhor ficar com  Tereza  ou ficar sozinho?
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo “esquisso” é a palavra certa, porque um esquisso é sempre um esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete em silêncio o provérbio alemão, einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver.
Kundera, Milan, A insustentável leveza do ser, 27ª Edição, Novembro de 2005, Publicações D. Quixote, pág. 15, 16 e 17
Colocado por Alcida Maria Morais

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Bravo Alcida!

Belo texto. Ainda está toda a gente com cerimónias em publicar...
Abraço
Paiva Raposo

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A propósito de uma temática....

CECCHINO DEI BRACCHI

Eu, Miguel Ângelo, entalhador de pedra, desenhei nesta abóbada a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados parecem esconder o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não querem que nós conheçamos.
Amei em primeiro lugar os meus sonhos porque não conhecia outra coisa. Depois amei a minha família (que era, parece-me agora, como se me amasse a mim mesmo) e os amigos que vinham a mim carregados de tanta beleza que eu me sentia ao mesmo tempo humilhado e feliz. Por fim amei uma mulher. Os meus pais morreram. Os meus amigos, os meus amados partiram: uns deixaram-me para viver, outros traíram-me com a sepultura. Dos que restam eu duvido; mesmo  que as minhas suspeitas sejam injustas, sofro tanto como se não fossem porque é no nosso espírito que tudo se passa. A mulher que amei também se foi deste mundo como uma estrangeira que se dá conta de que se enganou na porta e de que a sua casa é noutro sítio. Então pus-me de novo a amar os meus sonhos porque não me restava mais nada. Mas os sonhos também podem trair e agora eu estou só.
Amamos porque não somos capazes de estar sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. Quando por vezes disse em voz alta que gostava de alguém, via à minha volta piscadelas de olho e meneios de cabeça como se aqueles que me ouviam se julgassem meus cúmplices ou se sentissem com direito a serem meus juízes. Os que não vos acusam procuram desculpar-vos e isso é pior ainda. Por exemplo, uma vez amei uma mulher.  Quando falo só de uma mulher não estou a falar nas outras, as passantes que não são mulheres, mas sim a mulher e a carne. Amei uma só mulher, que não desejei, e quando penso nisso ainda não sei se era por ela não ser suficientemente bonita ou por sê-lo demais. Mas as pessoas não compreendem que a beleza possa ser um obstáculo que aplaca o desejo antes de ele nascer. Esses mesmos que nós amamos não o compreendem ou não querem compreendê-lo. Espantam-se, sofrem, resignam-se. Depois morrem. Então começamos a temer que a nossa renúncia tenha pecado contra nós mesmos, e o nosso desejo, agora sem saída, tornado irreal e obsessivo como um fantasma, torna-se monstruoso como tudo aquilo que não chegou a ser. De todos os remorsos do homem, o mais cruel é aquilo que ficou por realizar.
Amar alguém não é simplesmente querer que ele viva, é também espantar-se que ele deixe de viver, como se morrer não fosse natural. E, no entanto, ser é um milagre mais surpreendente do que não ser; é diante daqueles que vivem que deveríamos ajoelhar como diante de um altar. Imagino que a natureza se cansa de resistir ao nada, como o homem de resistir às solicitações do caos. Na minha existência, mergulhada, à medida que avanço em anos, em períodos cada vez mais crepusculares, vi repetidamente formas de vida perfeita darem lugar a outras mais perto da humildade primitiva, tal e qual  como a lama é mais antiga que o granito;  e aquele que talha as estátuas não faz mais, no fundo,  que apressar o esboroamento da montanha. O bronze da sepultura de meu pai enche-se de verdete num cemitério de aldeia, a imagem do jovem de Florença há-de começar a escamar-se nas abobadas que pintei, os poemas que fiz à mulher que amei não serão compreendidos dentro de poucos anos, e essa é uma maneira de os poemas morrerem. Querer imobilizar a vida é a danação do escultor. É talvez nesse sentido que toda a minha obre é contra a natureza, pela erosão, pela patina, pelos jogos de luz e de sombra em planos que pareciam abstractos mas que são, afinal, a superfície de uma pedra. Assim, a eterna mobilidade do universo suscita sem dúvida a admiração ou o espanto do Criador.
Beijei, antes que a pusessem no caixão, a mão da única mulher que para mim dava sentido à vida toda, mas não beijei os seus lábios, e agora tenho pena, como se eles tivessem podido ensinar-me qualquer coisa. Também não beijei o jovem de Florença, nem as suas mãos, nem o seu rosto claro. Mas esse não lamento, era demasiado belo. Era perfeito como aqueles que nada pode atingir, pois os mortos são todos impassíveis. Vi muitos mortos. O meu pai, retornado à sua raça, não era mais do que um Buonarroti anónimo: libertara-se do fardo de ser ele; na humildade da morte, ele apagava-se até ao ponto de ser apenas um nome numa longa série de homens; a sua linhagem não desaguava já nele mas em mim, seu sucessor, pois os mortos são só os termos de um problema que se põe, de cada vez, a cada um dos seus continuadores vivos. A mulher que amei, no fim da agonia que a sacudiu como para arrancar-lhe a alma, ficou com um duro e triunfante sorriso a pairar como se, vitoriosa da vida, desprezasse em silêncio a sua adversária vencida, e eu pude ver nela o orgulho de ter ultrapassado a morte. Cecchino dei Bracci, meu amigo, era simplesmente belo. A sua beleza, que se parcelara em vida em tantos gestos e pensamentos, feitos expressão e movimento, voltava a ser intacta, absoluta, eterna: parecia que ele tinha composto o corpo antes de o deixar. Vi sorrisos dar cor a lábios exangues, filtrar sob pálpebras cerradas e iluminar tantos rostos. Os mortos repousam satisfeitos numa certa certeza que nada pode destruir porque é ela que se anula à medida que se cumpre. E porque eles tinham passado alem da ciência, eu supus que eles sabiam.
Mas talvez os mortos não saibam que sabem.

Yourcenar, Marguerite, O tempo esse grande escultor, Difel, 2001, pág.21, 22 e23
Colocado por Alcida Maria Morais

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Viagem no Rio

Coloquei no YouTube um trecho de um vídeo que fiz no Rio que estou pensando em incluir no meu projeto: http://youtu.be/_iDJU3xONoo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Projecto filme «Luzes» II

DESISTO...
Estou quase louca e completamente perdida por causa deste Movie Maker que está constantemente a bloquear...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

INSTALAÇÃO



Na impossibilidade de transpotar facilmente a figura do projecto, apresento a evolução da mesma periodicamente.

domingo, 22 de janeiro de 2012

LE BRUIT DU SILENCE II (projecto filme)

Professor:
Nesta outra versão, parece-me que os tempos estão mais adequados às fotos.
Segunda feira gostaria de projectar o filme na parede para vêr o efeito.
Abraço.

Sundance Film Festival

Quem quiser dar uma espreitadela no Antes de Tempo, encontrará os links para o Sundance deste ano com propostas muito interessantes. Bom fim de semana!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Software interessante


Ainda não cheguei à desertificação, mas esse soft promete com sua capacidade de transformação.