sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Para quem quer saber de labirintos e de espelhos
Labirinto
Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.
O labirinto
Zeus não poderia desatar as redes
de pedra que me cercam. Já esqueci
todos os homens que antes fui; segui
o caminho de insípidas paredes
que é o meu destino. Rectas galerias
que se curvam em círculos secretos
ao fim de muitos anos. Parapeitos
gretados pela erosão dos dias.
Entre a poeira tenho decifrado
rastos que temo. O ar tem-me trazido
nas mais côncavas tardes um bramido
ou o eco de um bramido desolado.
Sei que na sombra há Outro, cuja sorte
é fatigar as tão longas saudades
que tecem e destecem este Hades,
ansiar meu sangue e devorar-me a morte.
Ambos nos procuramos. Quem me dera
fosse este o dia último da espera.
Jorge Luis Borges in Elogio da Sombra, 1969.
Ao espelho
Porque insistes, espelho permanente?
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-te horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro...
Jorge Luis Borges in O Ouro dos Tigres, 1972.
Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.
O labirinto
Zeus não poderia desatar as redes
de pedra que me cercam. Já esqueci
todos os homens que antes fui; segui
o caminho de insípidas paredes
que é o meu destino. Rectas galerias
que se curvam em círculos secretos
ao fim de muitos anos. Parapeitos
gretados pela erosão dos dias.
Entre a poeira tenho decifrado
rastos que temo. O ar tem-me trazido
nas mais côncavas tardes um bramido
ou o eco de um bramido desolado.
Sei que na sombra há Outro, cuja sorte
é fatigar as tão longas saudades
que tecem e destecem este Hades,
ansiar meu sangue e devorar-me a morte.
Ambos nos procuramos. Quem me dera
fosse este o dia último da espera.
Jorge Luis Borges in Elogio da Sombra, 1969.
Ao espelho
Porque insistes, espelho permanente?
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-te horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro...
Jorge Luis Borges in O Ouro dos Tigres, 1972.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A sombra sou eu
Tal como o professor costuma dizer, a quem possa interessar, aqui fica mais um caminho:
A sombra sou eu
A sombra sou eu
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Nesta vida de pensar ou repensar quem sou, deparei com alguém que já dizia "Não sei quantas almas tenho" e assumia que se é sempre mais do que um, e que, entre todos aqueles que se é, não se distingue o eu original.
Deixo aqui alguns trechos, que achei particularmente inspiradores.
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Ricardo Reis
Depus a máscara e vi-me ao espelho ...
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança,
o passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um
términus de linha.
Álvaro de Campos
Cada um cumpre o destino que
lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.
Ricardo Reis
Não sei quantas almas tenho.
Fernando Pessoa
Deixo aqui alguns trechos, que achei particularmente inspiradores.
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Ricardo Reis
Depus a máscara e vi-me ao espelho ...
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança,
o passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um
términus de linha.
Álvaro de Campos
Cada um cumpre o destino que
lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.
Ricardo Reis
Não sei quantas almas tenho.
Fernando Pessoa
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
A quem possa interessar...
Bom dia!
Lembrei-me da Lucília mas sei que haverá mais trabalhos a tocar esta questão dos espelhos.
Lembrei-me da Lucília mas sei que haverá mais trabalhos a tocar esta questão dos espelhos.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
SE
..........
..........
..........
Se as palavras não vagueassem
pelas veredas do alfabeto, entre brumas
na estrada alucinada das ideias,
não encontraríamos a cordenada perfeita
para chegar ao cume do sentimento
que nos deixa guardar em lembranças nostálgicas
a dor das horas passadas.
Se não fosse porque existem almas gêmeas,
que compartilham em comunhão
a tertúlia da vida,
seria impossivel empreender a viagem,
imaginária,
num barco de papel até ao oceano infinito
onde se eternizam os momentos.
Teresa Jorge.
domingo, 5 de dezembro de 2010
PAISAGEM DISCURSIVO-SEPULTADA
Por Miguel de Carvalho
“Há uma árvore sepultada viva debaixo da noite”
(Retrato em Movimento ,Herberto Helder)
Há Outonos sepultados nos ramos e anjos sob as folhas. Há também maçãs e vozes sepultadas sob as estrelas. E colinas sob o sono matinal. Pescoços sob retratos em combustão. Sombras que fluem metalicamente. Inteligência solidificada no magma. Que levita, que levita e treme.
E há abismos que escrevem na água depois de sepultados. Espelhos que regressam embriagados à sepultura. Correntes de pássaros sem nome sobre uma praia sepultada na luz. Ventres sombrios e oclusos nas rosas em fogo.
E há amor sepultado na lapela do sono. Cadeiras de granito à espera do crepúsculo e de atingir a idade raiz. E há cometas sepultados na brancura inextinguível das praças, dos oceanos e das nuvens. No rio cuja foz se localiza a montante, gravita a saliva violeta sepultada em redor da chama.
E há seixos solares sepultados neles próprios. Portas de cristal que rompem paisagens nas gentes de costas em posição invertida. E há vocábulos estagnados no pântano e sepultados na beleza queimada pelo olhar amante. Como se de um ritual ensurdecedor se tratasse. E há geografias perplexas e sufocantes enquanto polvos bebem as magnólias. Sem aroma, sem sexo, sem luz.
E há flautas que crescem sepultadas no movimento. E há gastrópodes incompletos nos símbolos desordenados. Que choram. Que procuram a inocência sepultada no silêncio, entre o sol adormecido e o sino liquefeito. E há rostos caçadores de bocas vertiginosas nas memórias azuis.
E há vento incógnito e infiel. E há crianças e moinhos sepultados no lugar-instante onde o tempo retrocede dois minutos de eternidade. E na noite respira-se a sombra musicada dentro do amor.
© miguel de carvalho
(Retrato em Movimento ,Herberto Helder)
Há Outonos sepultados nos ramos e anjos sob as folhas. Há também maçãs e vozes sepultadas sob as estrelas. E colinas sob o sono matinal. Pescoços sob retratos em combustão. Sombras que fluem metalicamente. Inteligência solidificada no magma. Que levita, que levita e treme.
E há abismos que escrevem na água depois de sepultados. Espelhos que regressam embriagados à sepultura. Correntes de pássaros sem nome sobre uma praia sepultada na luz. Ventres sombrios e oclusos nas rosas em fogo.
E há amor sepultado na lapela do sono. Cadeiras de granito à espera do crepúsculo e de atingir a idade raiz. E há cometas sepultados na brancura inextinguível das praças, dos oceanos e das nuvens. No rio cuja foz se localiza a montante, gravita a saliva violeta sepultada em redor da chama.
E há seixos solares sepultados neles próprios. Portas de cristal que rompem paisagens nas gentes de costas em posição invertida. E há vocábulos estagnados no pântano e sepultados na beleza queimada pelo olhar amante. Como se de um ritual ensurdecedor se tratasse. E há geografias perplexas e sufocantes enquanto polvos bebem as magnólias. Sem aroma, sem sexo, sem luz.
E há flautas que crescem sepultadas no movimento. E há gastrópodes incompletos nos símbolos desordenados. Que choram. Que procuram a inocência sepultada no silêncio, entre o sol adormecido e o sino liquefeito. E há rostos caçadores de bocas vertiginosas nas memórias azuis.
E há vento incógnito e infiel. E há crianças e moinhos sepultados no lugar-instante onde o tempo retrocede dois minutos de eternidade. E na noite respira-se a sombra musicada dentro do amor.
© miguel de carvalho
Bibliografia para “Paisagem Discursivo Sepultada”
Publicado em “A Voz dos Espelhos” (Surrealismo actual), Amadora, 2008
Fotografias de Maria Celeste Alves
mdc
...Infância escondida, reprimida, esquecida no tempo....

...como se de um abismo se tratasse, onde tudo se escondia ...
mc
...sensações perdidas e esquecidas no
grito adormecido ...
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