quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Nesta vida  de pensar ou repensar quem sou, deparei com alguém que já dizia "Não sei quantas almas tenho" e assumia que se é sempre mais do que um, e que, entre todos aqueles que se é, não se distingue o eu original.
Deixo aqui  alguns trechos, que achei particularmente inspiradores.


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

                            Ricardo Reis


Depus a máscara e vi-me ao espelho ...
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...

É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança,
o passado que foi
A criança.

Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.

E volto à personalidade como a um
términus de linha.
                                         Álvaro de Campos


Cada um cumpre o destino que
     lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
    Nem cumpre o que deseja,
    Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
     Que a Sorte nos fez postos
     Onde houvemos  de sê-lo

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de nos coube.
     Cumpramos o que somos.
     Nada mais nos é dado.

                             Ricardo Reis


Não sei quantas almas tenho.

                             Fernando Pessoa

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