Nesta vida de pensar ou repensar quem sou, deparei com alguém que já dizia "Não sei quantas almas tenho" e assumia que se é sempre mais do que um, e que, entre todos aqueles que se é, não se distingue o eu original.
Deixo aqui alguns trechos, que achei particularmente inspiradores.
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Ricardo Reis
Depus a máscara e vi-me ao espelho ...
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre criança,
o passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um
términus de linha.
Álvaro de Campos
Cada um cumpre o destino que
lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.
Ricardo Reis
Não sei quantas almas tenho.
Fernando Pessoa
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