segunda-feira, 26 de novembro de 2012


Compreendi que viver é ser livre… Que ter amigos é necessário… Que lutar é manter-se vivo… Que para ser feliz basta querer… Aprendi que o tempo cura… Que a mágoa passa… Que a decepção não mata… Que hoje é o reflexo de ontem… Compreendi que podemos chorar sem derramar lágrimas… Que os verdadeiros amigos permanecem… Que a dor fortalece… Que vencer engrandece… Aprendi que sonhar não é fantasiar… Que para sorrir tem que se fazer alguém sorrir…Que a beleza não está no que vemos, e sim no que sentimos… Que o valor está na força da conquista… Compreendi que as palavras têm força… Que fazer é melhor do que falar… Que o olhar não mente… Que viver é aprender com os erros… Aprendi que tudo depende da vontade… Que o melhor é sermos nós mesmos… Que o SEGREDO da vida é VIVER !!!”

“E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusivé muitas vezes é o próprio, apesar de, que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida.”
Clarisse Lispector
Colocado por Alcida Maria Morais

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Há vários anos que ando a pensar em Tomas, mas só à luz destas reflexões é que o vi pela primeira vez com toda a nitidez. Vejo-o de pé, a uma janela da sua casa, a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio. Sem saber o que fazer.
Conhecera Tereza mais ou menos há três semanas numa cidadezinha da Boémia. Só tinham passado pouco mais de uma hora juntos. Ela acompanhara-o à estação e tinha esperado até ele entrar no comboio. Dez dias mais tarde , veio vê-lo a Praga. Fizeram amor logo no próprio dia da sua chegada. Durante a noite Tereza ficou cheia de febre e passou uma semana inteira com gripe em casa dele.
Sentiu então um amor inexplicável por aquela rapariga que mal conhecia. Parecia-lhe uma criança que alguém pusera numa cesta  untada com pez e abandonara às águas de um rio para ele recolher na margem da sua cama.
Ficou uma semana em casa dele e, depois, uma vez curada, voltou para a cidade onde morava, a duzentos quilómetros de Praga. E é aqui que se situa o momento de que falei há pouco e onde vejo a chave da vida de Tomas: está de pé à janela e a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio e reflecte:
Deve-lhe propor que venha instalar-se em Praga? É uma responsabilidade que o apavora. Se a convida a vir passar uns dias a sua casa, ela virá imediatamente oferecer-lhe a vida inteira.
Ou deve renunciar? Nesse caso, Tereza continuará a ser criada numa cervejaria daquele buraco de província e nunca mais a verá.
Quer que ela venha ter consigo ou não?
Olha para o pátio, tem os olhos fixos no prédio em frente e procura uma resposta.
Volta, ainda e sempre, à imagem daquela mulher deitada no seu divã; nunca conhecera ninguém assim. Não era nem uma amante nem uma esposa. Era uma criança que tirara de uma cesta untada com pez e que poisara na margem da sua cama. Ela adormecera. Ajoelhou-se ao seu lado. O hálito febril acelerou-se e ouviu um leve gemido. Encostou o rosto ao dela e soprou algumas palavras de repouso para dentro do seu sono. Um instante depois, pareceu-lhe que a respiração de  Tereza se acalmava e que o seu rosto se levantava maquinalmente em direcção ao dele. Cheirava-lhe nos lábios o cheiro um pouco acre da febre e aspirava-o como se se quisesse impregnar da intimidade do seu corpo. Pôs-se então a pensar que  Tereza  já lá morava em casa há muitos anos e que estava moribunda. De repente, tornou-se-lhe evidente que não sobreviveria à sua morte. Deitar-se-ia a seu lado para morrer também. Escondeu o rosto contra o dela na almofada e assim ficou por longo tempo.
Neste momento, está de pé à janela e invoca esse instante. O que seria que assim se dava a conhecer senão o amor?
Mas o amor era isso? Tinha-se convencido de que queria morrer ao lado dela, e este sentimento era manifestamente excessivo: se era só a segunda vez que a via!  Não seria antes a reacção histérica de um homem que, ao aperceber-se, no seu foro íntimo, da sua incapacidade para amar, começava a representar para si próprio a comédia do amor? Ao mesmo tempo, o seu subconsciente era de tal modo cobarde que escolhia para essa comédia uma pobre criada de província que não tinha praticamente nenhuma hipótese de entrar na sua vida!
Olhava para as paredes sujas do pátio e percebia que não sabia se aquilo era histeria ou amor.
E, numa situação em que qualquer homem a sério saberia imediatamente como agir, censurava-se intimamente por hesitar e por assim privar o momento mais belo da sua vida (ajoelhado à cabeceira da rapariga, convencido de que não sobreviveria à sua morte) de todo e qualquer significado.
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem rectificada em vidas posteriores.
É melhor ficar com  Tereza  ou ficar sozinho?
Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo “esquisso” é a palavra certa, porque um esquisso é sempre um esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete em silêncio o provérbio alemão, einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver.
Kundera, Milan, A insustentável leveza do ser, 27ª Edição, Novembro de 2005, Publicações D. Quixote, pág. 15, 16 e 17
Colocado por Alcida Maria Morais

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Bravo Alcida!

Belo texto. Ainda está toda a gente com cerimónias em publicar...
Abraço
Paiva Raposo

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A propósito de uma temática....

CECCHINO DEI BRACCHI

Eu, Miguel Ângelo, entalhador de pedra, desenhei nesta abóbada a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados parecem esconder o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não querem que nós conheçamos.
Amei em primeiro lugar os meus sonhos porque não conhecia outra coisa. Depois amei a minha família (que era, parece-me agora, como se me amasse a mim mesmo) e os amigos que vinham a mim carregados de tanta beleza que eu me sentia ao mesmo tempo humilhado e feliz. Por fim amei uma mulher. Os meus pais morreram. Os meus amigos, os meus amados partiram: uns deixaram-me para viver, outros traíram-me com a sepultura. Dos que restam eu duvido; mesmo  que as minhas suspeitas sejam injustas, sofro tanto como se não fossem porque é no nosso espírito que tudo se passa. A mulher que amei também se foi deste mundo como uma estrangeira que se dá conta de que se enganou na porta e de que a sua casa é noutro sítio. Então pus-me de novo a amar os meus sonhos porque não me restava mais nada. Mas os sonhos também podem trair e agora eu estou só.
Amamos porque não somos capazes de estar sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. Quando por vezes disse em voz alta que gostava de alguém, via à minha volta piscadelas de olho e meneios de cabeça como se aqueles que me ouviam se julgassem meus cúmplices ou se sentissem com direito a serem meus juízes. Os que não vos acusam procuram desculpar-vos e isso é pior ainda. Por exemplo, uma vez amei uma mulher.  Quando falo só de uma mulher não estou a falar nas outras, as passantes que não são mulheres, mas sim a mulher e a carne. Amei uma só mulher, que não desejei, e quando penso nisso ainda não sei se era por ela não ser suficientemente bonita ou por sê-lo demais. Mas as pessoas não compreendem que a beleza possa ser um obstáculo que aplaca o desejo antes de ele nascer. Esses mesmos que nós amamos não o compreendem ou não querem compreendê-lo. Espantam-se, sofrem, resignam-se. Depois morrem. Então começamos a temer que a nossa renúncia tenha pecado contra nós mesmos, e o nosso desejo, agora sem saída, tornado irreal e obsessivo como um fantasma, torna-se monstruoso como tudo aquilo que não chegou a ser. De todos os remorsos do homem, o mais cruel é aquilo que ficou por realizar.
Amar alguém não é simplesmente querer que ele viva, é também espantar-se que ele deixe de viver, como se morrer não fosse natural. E, no entanto, ser é um milagre mais surpreendente do que não ser; é diante daqueles que vivem que deveríamos ajoelhar como diante de um altar. Imagino que a natureza se cansa de resistir ao nada, como o homem de resistir às solicitações do caos. Na minha existência, mergulhada, à medida que avanço em anos, em períodos cada vez mais crepusculares, vi repetidamente formas de vida perfeita darem lugar a outras mais perto da humildade primitiva, tal e qual  como a lama é mais antiga que o granito;  e aquele que talha as estátuas não faz mais, no fundo,  que apressar o esboroamento da montanha. O bronze da sepultura de meu pai enche-se de verdete num cemitério de aldeia, a imagem do jovem de Florença há-de começar a escamar-se nas abobadas que pintei, os poemas que fiz à mulher que amei não serão compreendidos dentro de poucos anos, e essa é uma maneira de os poemas morrerem. Querer imobilizar a vida é a danação do escultor. É talvez nesse sentido que toda a minha obre é contra a natureza, pela erosão, pela patina, pelos jogos de luz e de sombra em planos que pareciam abstractos mas que são, afinal, a superfície de uma pedra. Assim, a eterna mobilidade do universo suscita sem dúvida a admiração ou o espanto do Criador.
Beijei, antes que a pusessem no caixão, a mão da única mulher que para mim dava sentido à vida toda, mas não beijei os seus lábios, e agora tenho pena, como se eles tivessem podido ensinar-me qualquer coisa. Também não beijei o jovem de Florença, nem as suas mãos, nem o seu rosto claro. Mas esse não lamento, era demasiado belo. Era perfeito como aqueles que nada pode atingir, pois os mortos são todos impassíveis. Vi muitos mortos. O meu pai, retornado à sua raça, não era mais do que um Buonarroti anónimo: libertara-se do fardo de ser ele; na humildade da morte, ele apagava-se até ao ponto de ser apenas um nome numa longa série de homens; a sua linhagem não desaguava já nele mas em mim, seu sucessor, pois os mortos são só os termos de um problema que se põe, de cada vez, a cada um dos seus continuadores vivos. A mulher que amei, no fim da agonia que a sacudiu como para arrancar-lhe a alma, ficou com um duro e triunfante sorriso a pairar como se, vitoriosa da vida, desprezasse em silêncio a sua adversária vencida, e eu pude ver nela o orgulho de ter ultrapassado a morte. Cecchino dei Bracci, meu amigo, era simplesmente belo. A sua beleza, que se parcelara em vida em tantos gestos e pensamentos, feitos expressão e movimento, voltava a ser intacta, absoluta, eterna: parecia que ele tinha composto o corpo antes de o deixar. Vi sorrisos dar cor a lábios exangues, filtrar sob pálpebras cerradas e iluminar tantos rostos. Os mortos repousam satisfeitos numa certa certeza que nada pode destruir porque é ela que se anula à medida que se cumpre. E porque eles tinham passado alem da ciência, eu supus que eles sabiam.
Mas talvez os mortos não saibam que sabem.

Yourcenar, Marguerite, O tempo esse grande escultor, Difel, 2001, pág.21, 22 e23
Colocado por Alcida Maria Morais