quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A propósito de uma temática....

CECCHINO DEI BRACCHI

Eu, Miguel Ângelo, entalhador de pedra, desenhei nesta abóbada a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados parecem esconder o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não querem que nós conheçamos.
Amei em primeiro lugar os meus sonhos porque não conhecia outra coisa. Depois amei a minha família (que era, parece-me agora, como se me amasse a mim mesmo) e os amigos que vinham a mim carregados de tanta beleza que eu me sentia ao mesmo tempo humilhado e feliz. Por fim amei uma mulher. Os meus pais morreram. Os meus amigos, os meus amados partiram: uns deixaram-me para viver, outros traíram-me com a sepultura. Dos que restam eu duvido; mesmo  que as minhas suspeitas sejam injustas, sofro tanto como se não fossem porque é no nosso espírito que tudo se passa. A mulher que amei também se foi deste mundo como uma estrangeira que se dá conta de que se enganou na porta e de que a sua casa é noutro sítio. Então pus-me de novo a amar os meus sonhos porque não me restava mais nada. Mas os sonhos também podem trair e agora eu estou só.
Amamos porque não somos capazes de estar sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. Quando por vezes disse em voz alta que gostava de alguém, via à minha volta piscadelas de olho e meneios de cabeça como se aqueles que me ouviam se julgassem meus cúmplices ou se sentissem com direito a serem meus juízes. Os que não vos acusam procuram desculpar-vos e isso é pior ainda. Por exemplo, uma vez amei uma mulher.  Quando falo só de uma mulher não estou a falar nas outras, as passantes que não são mulheres, mas sim a mulher e a carne. Amei uma só mulher, que não desejei, e quando penso nisso ainda não sei se era por ela não ser suficientemente bonita ou por sê-lo demais. Mas as pessoas não compreendem que a beleza possa ser um obstáculo que aplaca o desejo antes de ele nascer. Esses mesmos que nós amamos não o compreendem ou não querem compreendê-lo. Espantam-se, sofrem, resignam-se. Depois morrem. Então começamos a temer que a nossa renúncia tenha pecado contra nós mesmos, e o nosso desejo, agora sem saída, tornado irreal e obsessivo como um fantasma, torna-se monstruoso como tudo aquilo que não chegou a ser. De todos os remorsos do homem, o mais cruel é aquilo que ficou por realizar.
Amar alguém não é simplesmente querer que ele viva, é também espantar-se que ele deixe de viver, como se morrer não fosse natural. E, no entanto, ser é um milagre mais surpreendente do que não ser; é diante daqueles que vivem que deveríamos ajoelhar como diante de um altar. Imagino que a natureza se cansa de resistir ao nada, como o homem de resistir às solicitações do caos. Na minha existência, mergulhada, à medida que avanço em anos, em períodos cada vez mais crepusculares, vi repetidamente formas de vida perfeita darem lugar a outras mais perto da humildade primitiva, tal e qual  como a lama é mais antiga que o granito;  e aquele que talha as estátuas não faz mais, no fundo,  que apressar o esboroamento da montanha. O bronze da sepultura de meu pai enche-se de verdete num cemitério de aldeia, a imagem do jovem de Florença há-de começar a escamar-se nas abobadas que pintei, os poemas que fiz à mulher que amei não serão compreendidos dentro de poucos anos, e essa é uma maneira de os poemas morrerem. Querer imobilizar a vida é a danação do escultor. É talvez nesse sentido que toda a minha obre é contra a natureza, pela erosão, pela patina, pelos jogos de luz e de sombra em planos que pareciam abstractos mas que são, afinal, a superfície de uma pedra. Assim, a eterna mobilidade do universo suscita sem dúvida a admiração ou o espanto do Criador.
Beijei, antes que a pusessem no caixão, a mão da única mulher que para mim dava sentido à vida toda, mas não beijei os seus lábios, e agora tenho pena, como se eles tivessem podido ensinar-me qualquer coisa. Também não beijei o jovem de Florença, nem as suas mãos, nem o seu rosto claro. Mas esse não lamento, era demasiado belo. Era perfeito como aqueles que nada pode atingir, pois os mortos são todos impassíveis. Vi muitos mortos. O meu pai, retornado à sua raça, não era mais do que um Buonarroti anónimo: libertara-se do fardo de ser ele; na humildade da morte, ele apagava-se até ao ponto de ser apenas um nome numa longa série de homens; a sua linhagem não desaguava já nele mas em mim, seu sucessor, pois os mortos são só os termos de um problema que se põe, de cada vez, a cada um dos seus continuadores vivos. A mulher que amei, no fim da agonia que a sacudiu como para arrancar-lhe a alma, ficou com um duro e triunfante sorriso a pairar como se, vitoriosa da vida, desprezasse em silêncio a sua adversária vencida, e eu pude ver nela o orgulho de ter ultrapassado a morte. Cecchino dei Bracci, meu amigo, era simplesmente belo. A sua beleza, que se parcelara em vida em tantos gestos e pensamentos, feitos expressão e movimento, voltava a ser intacta, absoluta, eterna: parecia que ele tinha composto o corpo antes de o deixar. Vi sorrisos dar cor a lábios exangues, filtrar sob pálpebras cerradas e iluminar tantos rostos. Os mortos repousam satisfeitos numa certa certeza que nada pode destruir porque é ela que se anula à medida que se cumpre. E porque eles tinham passado alem da ciência, eu supus que eles sabiam.
Mas talvez os mortos não saibam que sabem.

Yourcenar, Marguerite, O tempo esse grande escultor, Difel, 2001, pág.21, 22 e23
Colocado por Alcida Maria Morais

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