A propósito de uma temática....
CECCHINO DEI BRACCHI
Eu, Miguel Ângelo, entalhador de pedra,
desenhei nesta abóbada a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não
existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados
parecem esconder o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não
querem que nós conheçamos.
Amei em primeiro lugar os meus sonhos
porque não conhecia outra coisa. Depois amei a minha família (que era,
parece-me agora, como se me amasse a mim mesmo) e os amigos que vinham a mim
carregados de tanta beleza que eu me sentia ao mesmo tempo humilhado e feliz.
Por fim amei uma mulher. Os meus pais morreram. Os meus amigos, os meus amados
partiram: uns deixaram-me para viver, outros traíram-me com a sepultura. Dos
que restam eu duvido; mesmo que as
minhas suspeitas sejam injustas, sofro tanto como se não fossem porque é no
nosso espírito que tudo se passa. A mulher que amei também se foi deste mundo
como uma estrangeira que se dá conta de que se enganou na porta e de que a sua
casa é noutro sítio. Então pus-me de novo a amar os meus sonhos porque não me
restava mais nada. Mas os sonhos também podem trair e agora eu estou só.
Amamos porque não somos capazes de estar
sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. Quando por vezes disse em voz
alta que gostava de alguém, via à minha volta piscadelas de olho e meneios de
cabeça como se aqueles que me ouviam se julgassem meus cúmplices ou se
sentissem com direito a serem meus juízes. Os que não vos acusam procuram
desculpar-vos e isso é pior ainda. Por exemplo, uma vez amei uma mulher. Quando falo só de uma mulher não estou
a falar nas outras, as passantes que não são mulheres, mas sim a mulher e a
carne. Amei uma só mulher, que não desejei, e quando penso nisso ainda não sei
se era por ela não ser suficientemente bonita ou por sê-lo demais. Mas as
pessoas não compreendem que a beleza possa ser um obstáculo que aplaca o desejo
antes de ele nascer. Esses mesmos que nós amamos não o compreendem ou não
querem compreendê-lo. Espantam-se, sofrem, resignam-se. Depois morrem. Então
começamos a temer que a nossa renúncia tenha pecado contra nós mesmos, e o
nosso desejo, agora sem saída, tornado irreal e obsessivo como um fantasma,
torna-se monstruoso como tudo aquilo que não chegou a ser. De todos os remorsos
do homem, o mais cruel é aquilo que ficou por realizar.
Amar alguém não é simplesmente querer que
ele viva, é também espantar-se que ele deixe de viver, como se morrer não fosse
natural. E, no entanto, ser é um milagre mais surpreendente do que não ser; é
diante daqueles que vivem que deveríamos ajoelhar como diante de um altar.
Imagino que a natureza se cansa de resistir ao nada, como o homem de resistir
às solicitações do caos. Na minha existência, mergulhada, à medida que avanço
em anos, em períodos cada vez mais crepusculares, vi repetidamente formas de
vida perfeita darem lugar a outras mais perto da humildade primitiva, tal e
qual como a lama é mais antiga que
o granito; e aquele que talha as
estátuas não faz mais, no fundo,
que apressar o esboroamento da montanha. O bronze da sepultura de meu
pai enche-se de verdete num cemitério de aldeia, a imagem do jovem de Florença
há-de começar a escamar-se nas abobadas que pintei, os poemas que fiz à mulher
que amei não serão compreendidos dentro de poucos anos, e essa é uma maneira de
os poemas morrerem. Querer imobilizar a vida é a danação do escultor. É talvez
nesse sentido que toda a minha obre é contra a natureza, pela erosão, pela
patina, pelos jogos de luz e de sombra em planos que pareciam abstractos mas
que são, afinal, a superfície de uma pedra. Assim, a eterna mobilidade do
universo suscita sem dúvida a admiração ou o espanto do Criador.
Beijei, antes que a pusessem no caixão, a
mão da única mulher que para mim dava sentido à vida toda, mas não beijei os
seus lábios, e agora tenho pena, como se eles tivessem podido ensinar-me
qualquer coisa. Também não beijei o jovem de Florença, nem as suas mãos, nem o
seu rosto claro. Mas esse não lamento, era demasiado belo. Era perfeito como
aqueles que nada pode atingir, pois os mortos são todos impassíveis. Vi muitos
mortos. O meu pai, retornado à sua raça, não era mais do que um Buonarroti
anónimo: libertara-se do fardo de ser ele; na humildade da morte, ele
apagava-se até ao ponto de ser apenas um nome numa longa série de homens; a sua
linhagem não desaguava já nele mas em mim, seu sucessor, pois os mortos são só
os termos de um problema que se põe, de cada vez, a cada um dos seus
continuadores vivos. A mulher que amei, no fim da agonia que a sacudiu como para
arrancar-lhe a alma, ficou com um duro e triunfante sorriso a pairar como se,
vitoriosa da vida, desprezasse em silêncio a sua adversária vencida, e eu pude
ver nela o orgulho de ter ultrapassado a morte. Cecchino dei Bracci, meu amigo,
era simplesmente belo. A sua beleza, que se parcelara em vida em tantos gestos
e pensamentos, feitos expressão e movimento, voltava a ser intacta, absoluta,
eterna: parecia que ele tinha composto o corpo antes de o deixar. Vi sorrisos
dar cor a lábios exangues, filtrar sob pálpebras cerradas e iluminar tantos
rostos. Os mortos repousam satisfeitos numa certa certeza que nada pode
destruir porque é ela que se anula à medida que se cumpre. E porque eles tinham
passado alem da ciência, eu supus que eles sabiam.
Mas talvez os mortos não saibam que sabem.
Yourcenar, Marguerite, O tempo esse grande
escultor, Difel, 2001, pág.21, 22 e23
Colocado por Alcida Maria Morais
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