— Não pode
imaginar, Lúcio, como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em
que nos encontramos. Antes de o conhecer, não lidara senão com indiferentes —
criaturas vulgares que nunca me compreenderam, muito pouco que fosse. Meus pais
adoravam-me. Mas, por isso exactamente, ainda menos me compreendiam, Enquanto
que o meu amigo é uma alma rasgada, ampla, que tem a lucidez necessária para
entrever a minha. É já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por
isso hoje eu vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguém, a
maior estranheza do meu espírito, a maior dor da minha vida…
Deteve-se um
instante e, de súbito, em outro tom:
— É isto só: —
disse — não posso ser amigo de ninguém…
Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos — já lhe contei —,
apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela
maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo
de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os
meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por
consequência, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, apenas as adivinhei.
Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura
equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou mulher
ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma
criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.
"Ah! a minha
dor é enorme: Todos podem ter amizades, que são o amparo de uma vida, a
"razão" de uma existência inteira — amizades que nos dedicam;
amizades que, sinceramente, nós retribuímos. Enquanto que eu, por mais que me
esforce, nunca poderei retribuir nenhum afecto: os afectos não se materializam dentro de mim! É como se me faltasse
um sentido — se fosse cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo de
alma. Há qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer coisa que
eu palpo, e não posso sentir… Sou um desgraçado… um grande desgraçado,
acredite!
"Em certos
momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível! Em face de todas as
pessoas que eu sei que deveria estimar —
em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras — assalta-me sempre
um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de
beijar os lábios de minha mãe…
"Entretanto
estes desejos materiais — ainda lhe não disse tudo — não julgue que os sinto na
minha carne; sinto-os na minha alma.
Só com a minha alma poderia matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha
alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar — e assim
satisfazer, isto é, retribuir-sentindo
as minhas amizades.
"Eis tudo…
"Não me diga
nada… não me diga nada!… Tenha dó de mim… muito dó…
Calei-me. Pelo meu
cérebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguém a cujos pés, sobre uma estrada
lisa, cheia de sol e árvores, se cavasse de súbito um abismo de fogo.
Mas, após
instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:
— Bem… Já vai
sendo tempo de nos irmos embora.
E pediu a conta.
Tomamos um fiacre.
Pelo caminho, ao
atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao ouvido os sons de um violino
de cego, estropiando uma linda ária. E Ricardo comentou:
— Ouve esta
música? É a expressão da minha vida: uma partitura admirável, estragada por um
horrível, por um infame executante…
Sá Carneiro, Mário de, A Confissão de Lúcio, Assírio e Alvim, Lisboa, 2004,
pág 54, 55 e 56
Colocado por
Alcida Maria Morais
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