“Desertificação é o fenômeno que corresponde à transformação de uma área num deserto… O termo desertificação tem sido muito utilizado para a perda da capacidade produtiva dos ecossistemas causada pela atividade humana. Devido às condições ambientais, as atividades econômicas desenvolvidas em uma região podem ultrapassar a capacidade de suporte e de sustentabilidade. O processo é pouco perceptível a curto prazo pelas populações locais. Há também erosão genética da fauna e flora, extinção de espécies e proliferação eventual de espécies exóticas.” – Wikipedia
Desertificação, mesmo no sentido figurativo, é um processo de degeneração, do bom para o mal. É uma transformação com resultado negativo quase total, que confere vantagens apenas para aqueles que possam lucrar do fenômeno, por exemplo engenheiros hídricos, e os que tenham interesses em defender a tese que a raça humana está destruindo a planeta.
No seu livro, Non-lieux, introduction à une anthropologie de la surmodernité (1992) o antropólogo francês Marc Augé, elabora o conceito do não-lugar, espaço ambivalente que não tem nenhum dos atributos familiares de lugar, e que não incita nenhum sentido de pertença. O não-lugar é diametralmente oposto ao lar, à residência, aos espaços personalizados que o Augé encontrou nos seus estudos nas aldeias na África. Empiricamente, o não-lugar é representado pelos espaços públicos de rápida circulação, como aeroportos, rodoviárias, estações de metro, pelos meios de transporte, pelas grandes cadeias de hotéis e supermercados. O homem não vive e não se apropia desses espaços com os quais ele tende a ter uma relação de consumo. Mas o que é um não-lugar para alguns pode ser o contrário para outros. Trabalhar cotidianamente no aeroporto e estar de passagem para pegar um vôo trazem respostas diferentes ao espaço.
Por causa da evolução da tecnologia de comunicações, seja física, seja virtual, é possível transportar um grande número de pessoas e bens em distâncias e em velocidades impensáveis anteriormente. As informações (dados, idéias, dinheiro, detalhes pessoais, notícias, imagens, fofocagem, opiniões, teoremas de antropólogos) são transmitidas instantaneamente por internet, telefone televisão e rádio. As ferramentas para a geração dessas informações são portateis na forma de “smart phones” , a preços cada mais acessíveis.
Os antropólogos culturais comentam de forma filosófica sobre as consequências que eles vêem nesse processo; o mundo que contrai e ao mesmo tempo expande, a aceleração do espaço e do tempo, o aumento de interdependências pessoais, o Sistema Mundial que substitui o Sistema do Quintal. Essas proposições em si são qualitativamente neútras.
Comparar este processo de com o de desertificação é tendencioso, pois se cria uma qualificação negativa, a transformação do bom para o mal total, ignorando qualquer possibilidade de contra-corrente positiva.
A globalização em si não pode ser unicamente responsibilizada pela multiplicação de eventos sem capacidade de avaliação e apreciação. O aumento de população mundial e sua consequente urbanização tem que ser considerados. São os eventos que multiplicaram ou somente a nova capacidade de sabermos do eventos alheios? O acesso fácil às perpicácias científicas, e, quem sabe, às teorias dos antropólogos, não suplementa o papel tradicional de religião no seu papel de lidar com o desconhecido. Qual é a critéria que se usa para dizer “excesso de informações”? (Lembra a crítica do Imperador José II sobre a música de Mozart.)
No seu ensaio fotográfico “I Non Luoghi” (http://www.francesconencini.com/books2.asp?id=08&da=4) o Francesco Nencini retrata a questão em fotografías preto e branco de lugares de isolamento ou abandono, um deles uma galeria de arte! Nirza Butler (http://www.mirza-butler.net/index.php?/project/non-places/) explora a proposta em maneira similar, um lugar urbano de solidão. Num projeto no Flickr dominado por fotografias coloridas e bem compostas de lugares abandonados (www.flickr.com/groups/non-places/) o curador comenta “Non-Places does not equal "devoid of people". Would love to see more submissions of non-places with people.” O mesmo curador definiu não-lugares de uma forma certeira:
“Transient places: highways, public transport, airports, public waiting rooms, lounges, lobbies, parking lots, the subway, train and bus stations, commuters, traffic, etcetera.
Commercial spaces: big supermarkets, malls, international chain stores and restaurants, new housing estates, motels, chain hotels, and billboards.
Commodified spaces: spaces dedicated to leisure, tourism and commerce, theme parks, trade shows.
Spaces dedicated to communication: phone booths, spaces with public computers, convention centers, meeting rooms.
Marc Augé's notion of non-places is not to be confused with abandoned urban spaces or 'Nowhere Places' “
Commercial spaces: big supermarkets, malls, international chain stores and restaurants, new housing estates, motels, chain hotels, and billboards.
Commodified spaces: spaces dedicated to leisure, tourism and commerce, theme parks, trade shows.
Spaces dedicated to communication: phone booths, spaces with public computers, convention centers, meeting rooms.
Marc Augé's notion of non-places is not to be confused with abandoned urban spaces or 'Nowhere Places' “
Minha abordagem considera as seguintes conclusões:
· O “não-lugar” é um conceito filosófico e não existencial.
· Os “não-lugares” não são necessariamente desertos no sentido de deshabitados o pouco frequentados. Muito pelo contrário, muitos são caracterizados pela presença de multidões.
· Os “não-lugares” não são necessariamente feios, desconfortáveis ou mal-cuidados. Os espaços comodificados particularmente podem ter caracteristicas palaciais e luxuosas.
· O “não-lugar” pode ter mérito estética pela sua arquitetura ou presença na paisagem.
· O “não-lugar” é inerente na experiência pessoal, e não no local. Para mim, meu lar é um “lugar”, mas o vosso, não.
Em termos da expressão imagética do projeto quero evitar posições tendenciosas, especialmente me distanciando daquelas que apoiem os interesses políticos de ambientalismo, salvação da planeta, anti-comerciais, anti-globalização etc. Saudodismo de uma utópia histórica que não existia também não me interessa. Também tenho aversão à bula que fica na parede da sala de exposição, que “explica” o sentido da imagem
Vejo oportunidades de explorar a surrealidade da proposta do “não-lugar”; as contradições visuais/estéticas entre o “não-lugar” físico e o “não-lugar” retórico, ou alguma ilustração do tema da solidão no meio da multidão.
A proposta surrealista me parece ter bastante potencial. Minha idéia é de montar um agência de viagens virtual que organiza viagens a não-lugares. O material poderia incluir pôsteres, back-lights, brochuras, slideshows de propaganda, cartões postais dos viajantes e as memórias fotográficas ou cinematográficas que depois ficam naquele album que atrai a poeria na estante.
RWP
06/11/2011
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